05/08/2005 14:56
Cada vez que vejo minhas gatinhas (tenho duas vira-latinhas) tomando água com a maior vontade na tigelinha, ou até mesmo na torneira, fico pensando quão saudável é a alimentação desses bichinhos caseiros.
Elas não precisam de suco, bebidas com álcool, café, chá, açúcar, corantes, e rejeitariam mesmo um delicioso cappuccino ou um sorvete... no máximo, elas topam um leitinho. De resto, é uma vida de monge, pura água refrescante e ração balanceada.
Ah. A ração também é tudo de bom. É completa, segundo o fabricante. Tem isso, tem aquilo, mantém os pêlos brilhantes, os olhos vivos, o bichinho animadão. E a gente se entupindo de margarina, creme de leite, gordura de picanha, açúcar e farinha refinada. Fora as coisinhas tóxicas que nascem do tédio da vida.
Será que o paladar deles é muito diferente ou isso é cultural, desenvolve-se com o hábito? Quem sabe se nascêssemos de pais criados com uma ração para humanos e que nos dessem só dessa ração, acharíamos normal?
É claro que quando a ser humano aqui do pedaço resolve dar alguma coisa que elas me pedem do cardápio duas-pernas, elas comem com prazer, como pedacinhos de carne, peito de peru, de vez em quando a tampa de um iogurte pra lamber. Mas é coisa pouca. E isso porque dou, porque se não desse, tanto fazia. Comida deliciosa mesmo é aquela coisa que parece serragem aglomerada, na qual elas babam e fazem cróc cróc. Mesmo quando trago um pouco do que chamo comida de lata, a ração úmida, elas entendem como uma exceção, um sábado, um domingo melhorzinho.
Sei que existem também muitos bichinhos que não vivem de ração, que é algo caro. Quando eu era pequena meus pais cozinhavam pescoço de frango ou pedaços de carne com polenta para o cachorro, e deve haver muitos animais criados assim até hoje. Mas a comida é quase um tipo de ração, sempre igual, sem tempero, sem sal. E caso fossem acostumados com ração, também não faria diferença.
Será que esse nosso apetite por iguarias e rebuscamento gastronômico é uma das coisas que diferencia animais racionais e irracionais?
Já pensou um gato viajando para outro país e correndo em busca da ração local para experimentar? A gente faz isso.
Parece que até existem tentativas de pessoas isoladas de viver à base de dietas restritas e suplementos alimentares, em busca de uma vida longa. Mas a gente lê sobre isso e torce o nariz, parece que a vida não tem graça sem essa comidaiada diferente, os cheiros, as cores. Vida longa que nada, pensamos. Que se dane!
É como eu gosto de dizer: esses serezinhos que vivem de ração e entretêm nossos dias nesta Terra é que são os racionais...
enviada por Penélope
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